Acesso Reservado: EU, TU E NÓS, de Rui Bastos

Título: Eu, tu e nós
Autor:
Rui Bastos

Nota do autor: Todo este conto é um bocado estranho, principalmente pelo narrador que oscila entre a primeira pessoa do singular e a segunda pessoa do plural, mas também por o leitor poder assistir em primeira mão à luta interna que este narrador tem com o seu, digamos, hospedeiro. Esta sequência em específico foi inspirada pela visita ao Cemitério de Agramonte que fizemos durante uma das sessões portuenses da Oficina. A estátua da actriz Emília Eduarda, com os dois bebés brancos à frente, revelou-se uma imagem tão bizarra que tive que a incluir de alguma forma em algum sítio. O resultado está à vista.

Foto por Miss Calamy, obtida no blog
Foto por Miss Calamity, obtida no blog La Muerte Os Siente Tan Bien! sob uma licença CC CC BY-NC-ND 3.0

Excerto:

«Estamos num cemitério, mas não o que vimos durante a viagem. Este é muito maior, com campas e jazigos por todo o lado, arrumadas e arrumados de forma ordeira e geometricamente irrepreensível. Olhamos para cima e vemos a Lua no meio do azul intenso do céu. Ignoramos a incoerência e concentramo-nos naquilo que está à nossa volta. As placas têm datas antigas e estão rodeadas de jarros de pedra vazios.

Isto já não são campas, são décadas e décadas de esquecimento. Corremos para sair dali, mas só encontramos mais campas e mais ossários e mais jazigos, alguns do tamanho de pequenas casas e todos, sem excepção, com pedras rachadas nas fachadas. Paramos de correr em frente à estátua de uma mulher de aspecto grave e com dois bebés brancos adormecidos a seus pés. A mulher olha em frente com olhos que não vêem, e isso faz-nos sentir algo. Só que não é a nós… Nem a mim… É a ti.

Estamos no meio dos teus mortos. Os corpos escondidos nestas caixas de madeira e de pedra não me dizem nada, são veículos estragados, mas a ti lembram-te o que era e o que ainda vais ser. Mas não o que és, porque isso não interessa. É por isso que a mulher olha em frente, não é? É por isso que ignora os bebés. Está a tentar lembrar-se de quem é.»

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