Acesso Reservado: A PRIMEIRA MISSÃO, de Joel G. Gomes

Título: A Primeira Missão
Autor:
Joel G. Gomes

Nota do Autor: Esta história começou com a primeira frase e sendo essa uma frase estranha não é de estranhar que todo o resto também o seja. Creio que a frase inicial remonta a 2011, ano em que ainda não existia o Polícia Bom Polícia Mau, nem sequer a Oficina da Trëma. Culpo portanto o Luís Filipe Silva e o Rogério Ribeiro por terem proporcionado as condições em que esta coisa surgiu. A PRIMEIRA MISSÃO descreve o percurso de Renato Tadeu, um jovem que foi preparado desde muito novo para desempenhar uma determinada tarefa. Qual, perguntam vocês? O excerto a seguir não o revela, mas sendo ele o início da história poderão pelo menos verificar aquilo que disse no início: é uma história estranha. E também um pouco parva. Espero que apreciem essa harmonia de parvoíce e estranheza.

Excerto:

«O céu até estava muito bonito, já o ar tinha um pivete que não se podia andar na rua. Cheirava a bafo de bêbado. Daqueles que são amamentados a jeropiga. Era como se Deus Se tivesse desiludido de vez com aqueles que havia feito à Sua imagem e semelhança e decidisse afogar as mágoas. E a avaliar pelo bafo no ar, optara por um carrascão daqueles bem fortes. O que era no mínimo estranho, tendo Ele à Sua direita, segundo constava, um enólogo do camandro.

O contraste entre a beleza do que se via e o fedor que se cheirava só era perceptível por alguém com os sentidos muito apurados como era o caso de Renato Tadeu. Para todos os que se cruzavam com ele, habituados a não prestar atenção ao mundo à sua volta, porque era mais fácil fingir que estava tudo bem do que reparar nas coisas, aquele era um dia igual a todos os outros. Sim, o céu estava um pouco mais bonito que o habitual com aqueles degradés de púrpura e amarelo e laranja, mas não passava disso. Para Renato, no entanto, aquela situação proporcionava-lhe o ambiente de uma verdadeira aventura, pois assinalava o momento da sua primeira saída nocturna. Só era pena mesmo era o cheiro.

Estava nervoso, como seria de esperar de alguém que se preparava para fazer algo pela primeira vez. Fisicamente estava preparado para a sua tarefa, mentalmente também (ainda tinha algumas questões por resolver, mas isso era normal e expectável); psicologicamente é que a coisa não estava fácil. Os pais tinham-no preparado bem. Além dos ensinamentos que cada um havia ministrado, lera também vários livros sobre o assunto – alguns bastante ridículos, publicados apenas porque naqueles dias qualquer artolas com meia dúzia de tostões podia publicar desde que pagasse –, assim como alguns jogos de vídeo. Chegaram mesmo a oferecer-lhe um simulador de realidade virtual para ele experimentar antes da coisa propriamente dita. Acabaram por não o usar, visto que ninguém atinou com as instruções do aparelho.

O problema não era Renato achar que não tivera preparação suficiente: era achar que tivera preparação a mais. A preparação era uma coisa boa até chegar ao ponto em que deixava de contribuir para aumentar a qualidade do desempenho e passava a aumentar a profundidade do buraco onde se ia ser enterrado. Era como nos tempos das aulas de Educação Física na escola (ou seria, se Renato alguma vez tivesse ido à escola), nas provas de avaliação de ginástica, que só as miúdas e um ou outro totó apreciavam: ninguém queria ser o primeiro, mas também ninguém queria ser o último. No meio é que estava a virtude ou, pelo menos, a parte mais suportável da avaliação. Os pais, adolescentes em outros tempos de revolução, tinham-lhe ensinado que “Numa manifestação, deves ir sempre na terceira, no máximo segunda fila. Dá para veres o que se passa, mas se houver confusão, tens tempo de fugir.” Era um conselho útil, apesar de não ter qualquer utilidade naquele contexto.

Tinha gravado na sua mente o trajecto que devia seguir até chegar ao seu destino. Esse destino, contudo, não era o ponto final da sua jornada, era apenas o campo onde tudo se iria passar. O local onde ele deixaria de ser um desconhecido e passaria a fazer parte da memória colectiva. Ignorariam o seu nome, porque este nunca seria revelado, mas lembrar-se-iam para sempre dos seus actos. De preferência pela perfeição do seu desempenho e não pela gravidade do seu falhanço.»

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