O Chui leu: DA FAMÍLIA, de Valério Romão

imageTítulo: Da Família
Autor: Valério Romão
Publicado por: Abysmo
Ano da edição: 2014
Páginas: 150

Sinopse: Um dos mais desafiantes escritores da actualidade regressa com um conjunto de 11 contos, alguns deles anteriormente publicados em revistas como Grantaou Egoísta. Em estilo de grande crueza lírica, expande aqui  o  seu  universo  para  o  tema  omnipresente  da  família,  desenhando  com  inusitada  autenticidade extraordinárias personagens e ambientes apocalípticos.

Na capa, um pequeno espelho, que o tempo e o uso riscarão, lembra que ninguém, nenhum dos incautos leitores, consegue escapar do retrato de família, uma qualquer família.

«O nascimento do Rogério foi a coisa mais bonita a acontecer-nos enquanto casal, diria mesmo que o foi o momento pelo qual ambos esperávamos como se de um crisma se tratasse e ele viesse de frança, do céu, do bico de uma cegonha, cansada daqueles três quilos e oitocentos confirmar  finalmente  a  nossa  união,  por  não  podermos  nunca  mais,  desde  o  advento  do  cristianismo, sermos só e apenas dois: a unidade é a trindade, repetia-me a Marta, no lusco-fusco, quando esgotados  e satisfeitos de muitas formas distintas caíamos, um em cima do outro, fruta madura num alguidar de linho à espera do consolo da noite e do silêncio.»

Veredito (de Sandra Martins Pinto): Acho que a primeira vez que ouvi falar de Valério Romão foi nesta entrevista ao Público, há uns meses atrás. Depois, algures, já não saberia dizer onde, vi alguém referir-se-lhe como uma das poucas vozes actuais dignas de nota no que à ficção curta portuguesa diz respeito. É sempre assim que me decido a conhecer um autor novo: por acumulação. Acumulação de menções (recomendações ou anti-recomendações), encontros inesperados em montras de livrarias, palavras a uma revista ou àqueles programas de TV (cada vez mais escassos) em que se discute literatura. Um belo dia, lá estou, tão curiosa que já não resisto mais a conhecer, em directo e sem intermediários, a escrita daquela pessoa.

Da Biblioteca de Ovar lá veio o Da Família, um livrinho de contos que, mesmo que mais nada o recomendasse, teria sempre a seu favor a composição gráfica extremamente cuidada – o que, não sendo o essencial, não deixa de ser recomendável, porquanto um livro, sendo essência, também não pode deixar de ser objecto. E o objecto neste caso é muitíssimo interessante (a atenção à composição fica patente num cólofon a sério, coisa cada vez mais rara), a começar pela capa, em que uma moldura espelhada nos devolve o nosso rosto, fazendo-nos perceber que aquelas famílias – bizarras, cruéis, mas tão profundamente reconhecíveis – são também a nossa. Que são uma única Família, comum, arquetípica e partilhada, como já indicia, também, o uso dos mesmos nomes de conto em conto. Além disso, cada história tem um pequeno ícone (um cutelo; uma chupeta; uma árvore cortada) que de alguma forma sumaria a história e surge na margem exterior das respectivas páginas.

E depois (depois só cronologicamente), as histórias. As histórias são pequenos shots de surrealismo, que ardem na garganta, nos fazem estremecer e sentir vivos. Um pai que incha como um balão até ficar pairando sob o tecto da sala (Quando o Pai Começou a Meter Ar); um irmão mais velho que, para mitigar o desgosto de um pai subitamente viúvo, se dispõe a desempenhar o papel da mãe morta, de forma cada vez mais perfeita (À Medida que Fomos Recuperando a Mãe); um avô que, graças às guelras que recebeu num concurso de TV, se torna inesperadamente o membro mais válido da família num mundo diluviano (O Meu Avô Era o Único Que Tinha Guelas, Além de Pulmões); e, finalmente, o excelente Para não te ver, de lá do mais fundo da insanidade humana. Normalmente tenderia a não apreciar contos tão kafkianos, mas a verdade é que vários deles estão magistralmente compostos, em termos de estrutura, e a linguagem é exacta, certeira, uma seta sempre a acertar no alvo – sem deixar de ser bela. Coisas deste género:

«Em casa, a minha mãe cozinhava um arroz de pato descoberto numa arqueologia de congelador, uma coisa extirpada ao glaciar doméstico com uma chave de fendas, através da qual ela picava e extraía bocados grandes de gelo, operação da qual, por vezes, assomava, baço como um fantasma, um carapau jurássico do qual já não se sabia a origem cronológica.»

E assim, o que poderia ter sido, nas mãos de outro autor menos capaz, um exercício experimentalista sem rumo e sem sentido, acaba por resultar francamente bem. E sabe como uma caixa de bombons.

Neste caso, julgo que só este chui é que terá lido, mas que toda a esquadra adoptaria. O Joel ia adorar o humor, a Jules e o Rui o sangue, a Elsa a temática intimista, a Leonor os pequenos detalhes que nos transportam e nos prendem. Cinco estrelas. O conto português está bom e recomenda-se!

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