Acesso Reservado: SONHOS ROUBADOS, de Joel G. Gomes

Título: Sonhos Roubados
Autor:
Joel G. Gomes

Nota do autor: A origem deste conto partiu de um desafio que eu próprio propus e que consistia em cada elemento do grupo escrever uma frase isolada e encaixá-las todas na mesma história. Creio que todos responderam a esse desafio, mas só alguns é que já o deram por terminado. Eu ainda não fui deles. Comecei com a seguinte frase: «As noites boas eram aquelas em que não sonhava, aquelas em que possibilidades não nasciam ao tombar das pálpebras.» Não foi esta a frase que propus no desafio, mas foi aquela que fez com que o novelo começasse a desenrolar. Depressa percebi o que tinha: uma mulher presa, tanto no tempo como no espaço,  condenada a sonhar todas as noites com o dia seguinte, sendo que todos os dias eram iguais. O uso da palavra “condenada” não foi por acaso, embora ainda não saiba exactamente porquê. Muito menos ela. O excerto que aqui partilho ilustra o momento em que esses mistérios começam a ser resolvidos.

Excerto:

«Na manhã em que as coisas começaram a mudar, ouvi a campainha tocar e tentei não fazer caso. Sabia quem era, o que é que queria, e era uma conversa que não me interessava ter. Apesar disso, e tal como sonhara, levantei-me para ir abrir a porta. Não bastava saber o futuro: tinha que vivê-lo. O Destino não gosta de ser contrariado. Nos primeiros tempos cometera a asneira de acreditar que os meus sonhos existiam para me guiar. Julgava que saber o que iria acontecer permitir-me-ia optar com maior segurança.

Depressa percebi que esses momentos, essas imagens do porvir, eram um guião para o que eu teria de fazer e qualquer desvio que eu ousasse cometer seria punido de forma horrenda. Para alguém que se diz tão farta disto, a oportunidade de poder ter um fim rápido era muito sedutora. O problema era que quem sofria com as minhas ousadias nunca era eu.

Abri a porta sem espreitar quem era e espantei-me ao ver que no outro lado não estava quem eu esperava.

Manhã sim, manhã não, sempre às 9:17 em ponto, um homem de barba branca, olhos vermelhos e fato amarelo aparecia com uma pergunta, que era mais uma acusação: “Porque destróis o que não é teu?”

Mesmo sabendo que não tinha feito nada de errado, não conseguia deixar de me sentir culpada. O homem era uma miragem, um fragmento de sonho que encontrava forma de se manifestar no mundo real. Por várias vezes tentara tocá-lo, detê-lo, questioná-lo – como névoa em forma de gente, ele dissipava-se para não mais o tornar a ver.

A não ser passados dois dias.

Só que desta vez não era o tal velho que me viera tocar à campainha. À minha frente estavam duas figuras: um adolescente com uma farda de escuteiro e um menino de bibe azul. Por momento ainda pensei que pudessem ser reais. Depois reparei nos seus olhos. Tal como os olhos vermelhos do velho, também os deles possuíam uma particularidade desconcertante: eram transparentes, verdadeiras janelas da alma. Ou seria, se acaso os sonhos possuíssem alma.»

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