Pensa o Bófia de que: a primeira frase… (Rui Bastos)

… é muito importante. Por exemplo, tenho um primo que compra livros com base nas primeiras linhas. E por muito que um escritor esperneie e esbraceje o mais literariamente possível, essa frase de entrada no texto marca muito mais o leitor do que aquilo que conseguimos imaginar.

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La Nausée II, em “O futuro à janela”, de Luís Filipe Silva

Claro que isto não é inteiramente verdade, já que todos os escritores (que se prezem e realmente mereçam esse nome) são também leitores. Os efeitos profundos que as palavras têm em nós, leitores, são bem conhecidos de todos nós, escritores (amadores ou não). Normalmente, quanto melhor o escritor, melhor é esse entendimento: em parte, é isso que faz dele um bom escritor!

Eu costumava usar a primeira frase como forma de apresentar a cena que se ia desenrolar. Não era bem um resumo, mas tinha tendência a dar demasiados detalhes e a dizer muita coisa. Queria que o leitor entrasse a pés juntos e ficasse de imediato envolvido na história que eu ia contar.

Ah, a parvoíce dos dezanove anos. Era um puto, um jovem muito jovem, ainda sem conhecimentos relevantes de como se processam as coisas no mundo real. Agora, mais velho e mais sábio, sou capaz de olhar para essa altura e rir. Afinal, já passaram três anos. É o suficiente para passar a adulto sapiente, não é?

Não interessa. Vocês precisam é de saber como é que eu me apercebi do meu erro. Nem sequer é muito complicado de perceber, basta andar umas sessões da Oficina de Escrita para trás, até à primeira, na altura em que eram regularmente policiadas pelos nossos benevolentes simpáticos competentes e necessários mentores, o Rogério Ribeiro e o Luís Filipe Silva.

Para além de serem, respectivamente, o Polícia Mau e o Polícia Bom, eram também duas metades de uma peculiar quimera de críticas: o Rogério tinha uma abordagem científica, em que dissecava os contos com bisturi e muita paciência, extraía as coisas boas e coisas más para frasquinhos cerimoniais e devolvia-nos a nossa história mumificada, todos os defeitos bem realçados e todas as qualidades escondidas atrás de maldições eternas que só os escolhidos conseguiam alcançar; o Luís, por outro lado, preferia uma abordagem lírica, que usava para divagar da forma mais construtiva possível sobre o que é o nosso conto poderia ser.

Não que o Rogério não fosse construtivo. De um ponto de vista imediato, até era mais útil, ou útil de forma mais eficaz, se assim o quiserem, já que apontava problemas (ou pontos fortes) específicos e dizia o porquê de falharem (ou funcionarem). Alguém tinha que o fazer, e ele que até é uma pessoa bastante afável, sacrificou-se pelo bem comum.

Mas eram as intervenções do Luís que nos deixavam a carburar mais depois das sessões. As sugestões podiam ser tão radicalmente diferentes daquilo que tínhamos pensado inicialmente, que era preciso ter cuidado para não darmos por nós a escrever dois textos diferentes. Também temi muitas vezes pela vida dos protagonistas das nossas histórias – “mata o protagonista” devia ser a sua expressão favorita.

No entanto, naquela primeira sessão, foi um pormenor específico que o Luís apontou que me ficou para sempre marcado:

“A primeira frase está muito longa. Evita vírgulas, evita complicar. Sê directo. Não contes demasiado, mas cativa. Diz pouco, mas diz com impacto!”

Obviamente que não me lembro se foram exactamente estas as palavras. Provavelmente falta ali um “mata o protagonista” algures no meio. Mas aquilo marcou-me de tal forma que mudei completamente a minha forma de abordar um texto, até hoje, e assim tenciono manter-me.

Só que a magia literária daquelas palavras foi muito além da simples técnica de escrita. Foi com aquela sugestão, dada de forma tão simples, que pela primeira vez conciliei verdadeiramente o Rui leitor com o Rui escritor. Talvez pela primeira vez, já não estava ou a ler ou a escrever, mas sim a ver o texto.

De repente, tudo fez sentido. Claro que a minha primeira frase era demasiado longa. Eu não precisava de dizer aquilo tudo! Ninguém ia prestar atenção e ficar interessado com uma frase que nunca mais acaba e que podia perfeitamente ser condensada de duas ou três linhas para quatro ou cinco palavras.

O escritor pode querer introduzir o leitor da melhor forma possível, como aquelas pessoas que se esforçam para aumentar a temperatura do aquecedor o mais devagar possível, até valores tão altos que se fosse Verão, estaríamos a amaldiçoar o nosso clima ocasionalmente tropical; mas o leitor não quer saber disso, prefere alguém que tem o aquecedor logo a meio caminho do máximo, faz uma diferença imediata e dá logo vontade de tirar os casacos e a descontrair.

Tão simples e tão eficaz.  A primeira frase tem que convencer o leitor a continuar, tem que o interessar, acima de tudo. Começar logo por atacar a história e o cenário ao mesmo tempo, da forma mais envolvente possível, é condenar todo o texto ao falhanço.

Quem é que quer saber do livro que começa por “Depois daquele dia chuvoso de Março, mais nenhum habitante daquela cidade sofreu o trágico destino da morte.”? Mas quem é que consegue ficar indiferente a “No dia seguinte ninguém morreu”?

Menosprezar a primeira frase é daqueles erros que nunca mais vou cometer. Aliás, eu que já gostava de ser cuidadoso com os inícios e os fins, agora tenho dificuldade em arrancar sem ter um bom início. Enquanto escritor, também já não fico motivado a continuar se não tiver uma boa primeira frase. Sim, torna-se algo assim tão importante!

E por isso, obrigado Luís. Que as minhas primeiras frases te deixem satisfeito… e nunca deixem de agradar ao Rogério!

por Rui Bastos

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