Pensa o Bófia de Que: não se fazem omeletes… (Elsa Leal)

… sem ovos.

Parece uma daquelas frases-chavão, que nada terá a ver com a arte da escrita, certo?

Errado.

Hoje, aqui a Bófia Elsa quer falar sobre a arte de ensinar a escrever. Não falo dos workshops ou dos cursos à distância que proliferam que nem cogumelos pelo grande mundo do www. Hoje quero falar da arte de ensinar a escrever à séria, numa cadeira oficial do ensino superior português.

Deixem-me lá dar-vos o cenário: tenho uma sobrinha a tirar Comunicação Social (sim, já tenho idade suficiente para que isso aconteça, adiante…). Neste segundo ano do curso, uma das cadeiras leccionadas é Guionismo. O objectivo da cadeira é que os alunos escrevam um Guião da sua própria autoria e realizem uma curta-metragem como trabalho final da cadeira.

Até aqui nada de transcendente, não fosse o facto de me ter apercebido que o docente pretende que alunos que nunca partiram um ovo e pegaram numa frigideira, lhe apresentem uma omelete digna de uma estrela Michelin.

Basicamente, o que aconteceu foi que a minha sobrinha, sabendo que escrevo (ou, pelo menos, tento), me pediu ajuda porque não sabia por onde pegar neste projecto. Precisava de uma ideia, precisava de escrever uma sinopse, mais um resumo e, finalmente o Guião.

Eu confesso aqui a minha total ignorância no que diz respeito a técnicas de escrita cinematográfica, então recorri desavergonhadamente ao Bófia Joel, que tem formação e tudo na coisa, a pedir umas luzes sobre o assunto. Graças a ele, consegui então explicar à minha sobrinha o B + A = BA da coisa e dar início a mais um périplo pelo mundo da escrita.

A sério que não sei que género de ideia fazem os docentes desta cadeira, dos alunos que têm em mãos, mas talvez fosse bom recordarem-se que o curso é de Comunicação Social, em que alguém que está mais vocacionado para fazer jornalismo, locução de rádio ou edição de imagem, pode não possuir a mesma aptidão para a escrita de ficção. Comecemos por aí.
Ora, pensa esta Bófia de que, talvez tivesse sido boa ideia que, ao entregar excertos de guiões aos alunos e ao mostrar-lhes algumas curtas-metragens em aula, tivessem sido ensinadas também algumas técnicas básicas de escrita.
Lamento, mas fornecer uma lista com regras de estilo e dizer o que se pretende que o aluno apresente, não ajuda em nada alguém que nunca fez escrita criativa.
Se escrever prosa requer:  a) talento;   b) dedicação;   c) técnica;  d) podia continuar por aqui fora, mas já perceberam a ideia, certo?   – então, o que diremos de escrever noutros estilos? Mais, se pessoas como nós aqui no grupo, que se dedicam à escrita em part-time porque é algo que adoramos fazer, ainda assim têm as suas falhas, o que dizer de um grupo de alunos que nunca teve que o fazer?
O talento pode nem estar lá, mas coisas básicas como elementos lógicos para a caracterização de um personagem (como se veste, porque se veste assim naquela cena, porque muda de roupa na cena seguinte – ex. mudança de estação do ano), de um cenário (ex. estação do ano – árvores têm folhas, estão despidas, pisa folhas quando anda?) ou técnicas básicas da construção de um diálogo (ex. o tipo de linguagem adequado ao contexto/caracterização do personagem) deviam fazer parte da cadeira, mais que não fosse como orientação para a parte prática da realização do trabalho. E não fazem.

Depois, talvez fosse bom que alguém ligado ao mundo do cinema (mesmo que não passe de formação académica, não faço ideia se é o caso), onde existe toda uma variedade de géneros artísticos, não fechasse as portas a um Guião, apenas porque este inclui elementos de terror sobrenatural. Pareceu-me totalmente descabido e insultuoso à liberdade artística do aluno, uma vez que não lhes foi dado um tema ou um género específico onde o Guião tivesse que se enquadrar.
Após várias tentativas, rascunhos e alterações, o Guião só foi aceite quando a história de tornou mainstream (quanto a mim, perdendo a sua essência original e identidade do autor).
Reparem, como escritora deparo-me com críticas ao meu trabalho. Não sou perfeita, não sou brilhante, mas não posso nunca ponderar pôr o meu nome num trabalho onde não esteja “a minha voz”. Por isso, a atitude daquele professor pareceu-me algo extrema, efectivamente.

O texto já vai longo – ou não fosse eu moça de dizer em muitas palavras o que se pode resumir numa frase – mas creio que já perceberam por que razão esta questão me incomodou ao ponto de querer escrever sobre ela, certo?
Enquanto autora, preocupa-me sobretudo que não se invista no ensino da escrita, sobretudo quando se devia fazê-lo como parte do plano curricular das cadeiras que exijam o domínio de algumas técnicas para o desempenho dos trabalhos de avaliação. Caramba, na escola secundária ensinam-nos a escrever recensões críticas, resumos, composições, então por que razão não se ensinará numa universidade a escrever um Guião?!

Mesmo para alguém que já saiba mexer ovos, para fazer parte do mundo da comida gourmet, é preciso saber a técnica para virar a omelete na frigideira sem “esfrangalhar” tudo, certo? Pensa a Bófia Elsa de que…mas isso sou só eu, que às vezes até tenho mau feitio.

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