Acesso Reservado: A ARCA, de Joel G. Gomes

Autor: Joel G. Gomes

Nota do Autor: A ARCA, hoje em dia um conto, começou por ser um guião para uma curta-metragem de terror que não chegou a ser realizada, a propósito de um projecto do grupo de Facebook Portugal Fantástico. Desde então sofreu várias alterações, das quais a mais significativa foi a sua transformação em prólogo de uma série de histórias passadas no mesmo universo ficcional dos meus romances UM CAPPUCCINO VERMELHO e A IMAGEM.

Esse projecto, intitulado O MAL HUMANO, remonta a 2004 e, tal como A ARCA, começou por ser uma ideia para um produto audiovisual, desta feita uma série televisiva sobre crimes macabros. Considerando a dificuldade que seria levar a cabo um projecto desses, deixei-o na gaveta até descobrir uma outra alternativa para a sua execução. A resposta veio em 2013, não me lembro a propósito do quê, ano em que decidi transformar cada um dos episódios numa novela. Cada episódio tinha sido pensado para ser uma história diferente, com um elenco diferente. Percebi que assim não funcionaria tão bem quanto gostaria e reformulei o projecto de raiz, transformando-o numa série de investigação sobre crimes macabros. Conhecia agora estrutura e o tom que queria dar à série, mas faltava-me definir o ponto de partida. Por ser um projecto com cinco personagens principais, achei que seria arriscado atirar-me de cabeça para a escrita sem conhecer bem cada um deles. Resolvi por isso escrever uma história de apresentação para cada um desses personagens. A ARCA não serve de introdução a nenhum deles, mas serve de (re)introdução a um universo onde tudo é possível, um universo onde nada se repete, tudo é novo.

Excerto: «Quando Ana era viva, a casa tinha outro aspecto. Não havia teias sobre teias em todos os cantos e recantos. Não havia manchas de humidade que mais pareciam quadros de musgo. Não havia aquele odor bafiento que levava a maior parte dos visitantes a cobrir o nariz. Ela costumava dizer que o facto de morarem numa zona menos luxuosa não era razão para serem porcos.

Na véspera de completar um ano desde que a pessoa mais importante do seu mundo partira para sempre, Valter ainda lutava por aceitar isso. De qualquer modo, se não arregaçasse as mangas para dar uma valente limpeza à casa, não tardaria muito para que os vizinhos começassem a desconfiar que ele tinha trazido o corpo dela do cemitério.

Valter levou Rui pelo corredor que conduzia à cave. Ouviu-o soltar um suspiro e reconheceu neste o tom de repugnância mal disfarçado. Dado o aspecto da casa, era difícil não lhe dar razão. Não lhe faltava dinheiro para pôr a casa em ordem. Tinha dinheiro para mandar aquela casa abaixo e construir outra igual ou melhor. Se quisesse tinha os meios necessários para sair daquela zona, daquela vida.

Infelizmente, só os meios não chegava. Tal como outros antes dele, Valter estava preso a uma obrigação muito especial  – uma tarefa única que acompanhá-lo-ia não importava para onde fosse. Mal por mal, ali tinha as suas memórias. Dolorosas, porém suas.

Abriu a porta e procurou o interruptor. A cave até tinha janela para a rua, só que o vidro estava tão porco que parecia o universo na sua escuridão primordial. Quando Ana era viva quase nunca precisava de acender a luz da cave. A não ser depois de o Sol desaparecer ou em dias encobertos. Às vezes dava por si a pensar como é que o mundo à sua volta se teria deteriorado tão depressa em tão pouco tempo. Seria a sua indiferença e negligência o principal responsável?

Uma luz amarelada iluminou um espaço quase tão amplo como o piso de onde vinham e de igual modo desleixado. Entre outros elementos, sobressaíam uma bancada de madeira com um torno e ferramentas enferrujadas, cabos eléctricos espalhados pelo chão que nem ninhos de cobras e, a um canto, uma velha arca frigorífica.»

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