Pensa o Bófia de que: os géneros literários… (Rui Bastos)

…são mal usados e injustamente criticados. E não o digo por dizer, que já pensei muito sobre o assunto. Mesmo, mesmo muito. Em tempos, ainda o meu blog estava na pré-adolescência, até escrevi uma série de textos com o objectivo de desmistificar e tentar sistematizar os géneros literários.

Comecei por falar daquilo que se aprende na escola como sendo os géneros: as categorias abrangentes da prosa, poesia e texto dramático, com alguns peculiares híbridos pelo meio, como é o caso das epopeias.

Abaixo dessas categorias é que começam a surgir aquilo a que chamamos normalmente os géneros literários, e que nos permitem classificar, rotular, determinada obra: fantasia, ficção científica, policial, mistério, romance histórico e por aí fora. Feitas as contas, um conjunto enorme de rótulos que acima de simplificarem a visão que os leitores e não-leitores têm dos livros, simplificam a arrumação nas prateleiras das livrarias.

Nada como umas divisões deste estilo para ajudar a direccionar os leitores para aquilo que procuram, em vez de perderem tempo a procurar de outra forma. São divisões vagas o suficiente para incitar as pessoas a perder algum tempo por lá, mas específicas o suficiente para evitar que as pessoas percam demasiado tempo na livraria. Satisfação para ambos os lados.

E durante muito tempo as coisas ficaram assim. A malta lamechas e a malta culta lia poesia, os alunos liam teatros quando a isso eram obrigados, e os poucos que liam com regularidade sabiam perfeitamente que géneros gostavam de ter em mãos. Tirando alguns núcleos de resistentes leitores desgarrados, o panorama era esse. Foi assim que eu dei com Harry Potter e Eragon, por exemplo. Livros de fantasia, que eram as prateleiras das livrarias onde os miúdos deviam ir.

Mas recentemente isto mudou. Ler continuou a não ser fixe, mas ler certas coisas passou a ser a melhor coisa do mundo. Juntamente com isso, as pessoas começaram a ficar cada vez mais informadas cada vez mais cedo, com qualquer miúdo de primária a ser capaz de pegar num smartphone ou num tablet e ir procurar pelos jogos que quer, ou encontrar os vídeos que lhe apetecer.

O que fazer, então? Era preciso distinguir as coisas, para que ler não fosse uma coisa boa, excepto quando o livro era de um determinado tipo. Foi então que apareceram as sub-divisões e as sub-sub-sub-divisões e o raio que as parta. A comunidade não se desagregou, mas tornou-se extremamente sectária. Da ficção científica nasceram a distopia e os vários punks, os livros dividiram-se em literatura, literatura de género, literatura juvenil, literatura infantil, literatura infanto-juvenil, literatura feminina, romance erótico, fantasia erótica, romance paranormal… Os exemplos são tantos, e a hierarquia e organização tão confusa, que nem sequer vou tentar explicar e/ou perceber.

Ao mesmo tempo surgiu um movimento abraçado por algumas pessoas que manda tudo isto para certos sítios, critica quem fala em “géneros” e avisa sobre os males de pôr rótulos nos livros. E os argumentos até nem são nada idiotas. Quando acima do título, do autor e do livro em si, se põe o seu género, o seu rótulo, criam-se preconceitos. É por isso que a minha mãe diz que não gosta “dessas coisas fantasiosas”, e é por isso que certos autores dizem “isto que eu escrevi não é ficção científica, não tem naves espaciais nem intrigas laboratoriais”. Também é por isso que as pessoas “cultas” dizem que o 1984, o Admirável Mundo Novo, o A Laranja Mecânica e o Fahrenheit 451 são Literatura, e os fãs de ficção científica dizem que são distopias, que mais não é do que um ramo da dita ficção científica.

Por outro lado os rótulos são efectivamente limitadores. Como é que alguém no seu perfeito juízo pode pôr um rótulo em V for Vendetta, que além de banda-desenhada (o que hoje em dia parece ser o seu próprio género) é uma distopia, uma espécie de policial, um manifesto político, uma história de vingança, um tipo muito especial de história de amor e muitas outras coisas?

Além do mais, o que fazer a seguir a autores como Ray Bradbury, que escreveu ficção científica, horror, histórias de amor e, aparentemente, de tudo um pouco? Como classificar um livro como The Light Fantastic, que é uma história de fantasia satírica de aventuras que de vez em quando entra na ficção científica?

(existem exemplos piores, eu sei, acreditem que o sei bem, mas juro que não me estou a lembrar de melhor… vocês assim já percebem a ideia)

Entre os puristas da Literatura Séria e os obsessivos-compulsivos que gostam de dar nomes a géneros novos, existe um extenso gradiente de pessoas com as suas próprias regras. O resultado é que no mercado, e na mente de muita gente, cada vez mais há uma distinção entre a Literatura Séria e a literatura à qual pode ser atribuída um género, ao mesmo tempo que esses géneros se multiplicam mais depressa do que páginas num conto da Elsa.

E se me perguntarem a mim, digo-vos que o potencial perdido é enorme. Repudio inteiramente a noção de Literatura Séria e que exista sequer algo chamado literatura de género. Existe Literatura, ponto final. Pode ser boa ou pode ser um livro do Pedro Chagas Freitas, mas não se pode menosprezar um livro só por ter vampiros. Ou naves espaciais.

Por outro lado, o exagero dos géneros também é um abuso autêntico. Para quê tanto festival? O objectivo não é que cada livro seja um género por si só, mas que seja possível ter categorias vastas de livros tematicamente ligados que permitam, entre outras coisas, criar expectativas e simplificar a vida dos leitores. Imaginem que entravam numa livraria e tinham todos os livros simplesmente organizados por ordem alfabética. Não parece apelativo, pois não?

Ou seja, eu defendo os géneros literários. Ou as categorias, como quiserem. Mas com moderação. Não vejo mal nenhum em dizer “este livro é de ficção científica” ou “este livro é uma história de amor”, ou seja o que for. É algo que facilita a comunicação, e não quer dizer que por se pôr um rótulo numa determinada obra, essa obra seja única e exclusivamente aquilo que o rótulo descreve. Um livro raramente é apenas uma coisa, e a sua classificação até pode mudar dependendo de quem nele pegar. Aquilo que está mal é a forma como as pessoas os tratam. “Ficção científica? Fantasia? Sobrenatural? Pfft, não tens aí nada de Literatura?”. É difícil mudar mentalidades, mas digam o que disserem, parece-me ser o mais acertado!

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