Pensa o Bófia de que: por vezes é preciso… (Elsa Leal)

 …recomeçar.

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Quantas vezes não pensamos já estar perante A Ideia das nossas vidas, aquela que finalmente nos fará ser descobertos – quiçá catapultados para a fama? – e depois, no fim, vem alguém que desarma completamente a nossa lógica irrefutável e faz com que a nossa pretensa obra prima caia por terra?

O processo criativo é, muitas vezes, demorado e moroso. Umas vezes acerta-se em cheio, outras temos uma epic fail. A boa notícia é que podemos sempre começar de novo.

Quando se precisa de tempo para o processo de revisão, alcançar a versão final de um texto é apenas isso: uma questão de tempo. Mas, quando as sucessivas revisões se tornam numa revisão-da-revisão-da-revisão-da-revisão (Uffff!!!), será que não está na hora de recomeçar? E como podemos então avaliá-lo?

Deixem-me que vos diga que ter essa noção nem sempre é fácil. Primeiro porque geralmente começamos por pensar que a nossa ideia era mesmo mesmo boa! Depois porque rever um texto dá preguiça, até porque achamos que fizemos um bom trabalho e, como tal, já não vale a pena perder mais tempo com o assunto. A procrastinação torna-se a a mãe de todas as coisas e contornamos o assunto uma catrefada de vezes, até que nos rendemos às evidências – o nosso texto afinal não é tão bom como pensávamos e precisa de ser trabalhado para se tornar a obra-prima que queremos.

Negação. Posse. Aceitação. Resolução. Acção.

Passamos por todas estas fases antes de começarmos a revisão de um texto nosso e ainda assim não temos garantias quanto ao resultado final. Muitas vezes, mesmo quando finalmente nos resignamos e pomos mãos à obra, terminamos a dita revisão, submetemos de novo o trabalho a avaliação de terceiros, pensando que fizemos um bom trabalho, mas então a crítica não é a esperada. Começam então as dúvidas – se calhar a nossa ideia não era assim tão boa…

E isso pode ser frustrante, principalmente quando, após sucessivas revisões, o resultado final ainda assim não é o esperado. Quando assim é, não temos outra alternativa senão parar para pensar no seguinte:

  • O que queremos contar na nossa história? Qual a mensagem que queremos passar ao escrevê-la? Estamos de facto a passar essa ideia?
  • As críticas feitas ao texto contribuem efectivamente para a melhoria do seu conteúdo ou servem apenas para “efeitos de floreado”? Se sim, em que medida?
  • As alterações sugeridas vão mudar a essência da nossa história ou, pelo contrário, trazem  um impacto positivo na qualidade do texto que escrevemos?

Isto significa que teremos que filtrar o que nos é sugerido, contrabalançar tudo de forma objectiva com as nossas ideias, sair do campo da possessividade sobre a criação, do campo da emoção, para conseguirmos ver a nossa suposta obra-prima sob um novo ângulo.

Há que pesar se as sugestões não irão anular a nossa “voz” e perceber se, no final, estará ali a nossa história ou a de quem nos fez a revisão do texto. Sugestões e novos pontos de vista serão sempre bem-vindos, mas  há que fazer as devidas ponderações antes de embarcar nelas à primeira.

Quando soubermos as respostas a estas perguntas, saberemos então o que fazer: rever de novo ou simplesmente recomeçar?

Por muito que se tente, por vezes não há outra alternativa senão abrir um documento em branco. E muitas vezes é mais sensato fazê-lo do que insistir e persistir numa ideia ou numa fórmula que simplesmente não resulta.

Posso dar-vos dois exemplos de contos meus que estão em fase de revisão há mais tempo do que demoraram a serem escritos, mas cujos processos serão forçosamente diferentes.

“Defeito de Fabrico”

Este já conta com, pelo menos, seis revisões, três títulos e a versão final ainda está a ser revista e alterada porque sofreu sugestões, críticas e contestações ao que já estava feito que, de facto, interferem com o resultado final.

A personagem principal é complicada porque a sua personalidade é a chave do conto, por isso tudo tem que estar afinado para poder chegar ao resultado pretendido. Mas como neste caso as alterações são a nível de diálogos, reacções e emoções, não no conteúdo em si, não senti que houvesse necessidade de começar de novo. Ou seja, não mexendo com a mensagem inicial, o conto passou a ter uma dimensão que não teria sido possível alcançar logo de início.

“Boas Causas”

Dois títulos e três versões depois, a estrutura do conto já sofreu demasiadas alterações para sobreviver. Podem perguntar-me então qual a diferença entre este e o outro conto, que teve mais versões do que este. Porquê recomeçar este e rever o outro? Qual a diferença?

Porque neste conto, a caracterização do todo, no panorama global, não corresponde ao que quero contar, não está ali a minha voz, nem tão pouco os mundos que costumo criar, a personagem principal tem falta de personalidade consistente com a acção…enfim, está tudo errado. Acho que não é preciso mesmo continuar, certo?

Para mim foi fácil perceber, neste caso, a diferença entre ambas as situações. Embora essa possa ser por vezes a maior dificuldade, há ocasiões em que a fronteira é bastante clara. Basta pensar no que queremos da nossa história.

Leiam-se. Escutem-se. E, se for preciso, reescrevam-se.

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