Acesso Reservado: ESTAVA A CHOVER, de Joel G. Gomes

Título: Estava a chover
Autor:
Joel G. Gomes

Nota do autor: Comecei a escrever isto por volta das onze da noite do 31 de Dezembro de 2015, interrompi para celebrar a mudança de ano e depois continuei. O título era algo que me perseguia desde há muito e que chegou a encimar uma outra mancha de texto radicalmente diferente desta. Desfiz-me do conteúdo, mas guardei a expressão inicial: estava a chover. O resto veio com a chuva, em fragmentos que fui juntando e trabalhando até produzir algo que parece mais um final de história do que uma história completa.

Texto completo:

«Estava a chover quando tu entraste e disseste que ela tinha morrido.

Não me lembro das tuas palavras, mas sei bem o que ouvi. Dizias sempre que eu não te ouvia, que não prestava atenção ao que tu dizias – e tinhas razão – mas naquele momento ouvi-te. Naquele momento prestei-te atenção.

Talvez porque não me estivesses a dar novidade nenhuma.

Não, eu não sabia que ela tinha morrido – não até tu mo dizeres – mas sabia que tu só entrarias para dizer isso. Que outro motivo terias tu para me visitar ao fim de tantos anos? Que outra razão seria forte o suficiente para te convencer a procurar as chaves da minha cela?

Nada mais senão a satisfação de me roubares a última réstia de esperança que me restava.

Eu sabia que ela morrer primeiro que eu era tão certo como tu ires morrer primeiro que eu. Passem os anos que passarem, eu vou ser o último a morrer.

Isso incomoda-te? Foi por isso que entraste a sorrir?

Pois fica a saber que eu também sorrio. Agora, mais do que nunca, tenho razões para sorrir. Acreditavas mesmo que tirar-me a esperança iria deitar-me abaixo?

Pensava que já me conhecias melhor que isso.

Sim, magoa-me saber que ela morreu, chorarei a sua morte, mas alegra-me também porque sem ela não te resta nada com que me obrigares a cumprir a tua vontade.

Sem ela não há nada que me prenda aqui.

Estava a chover quando tu entraste e disseste que ela tinha morrido.

Com um sorriso.

Estava a chover quando te agarrei por trás e quebrei-te o pescoço.

Estava a chover quando saí da cela e corri pelos estreitos corredores que eram as veias da minha prisão de tantos e longos anos.

Estava a chover quando alcancei o portão principal, abri o postigo, e vi que, afinal, lá fora, estava sol.»

Insultos, elogios ou sugestões, clique aqui.

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s