Pensa o Bófia de que em Portugal… (Elsa Leal)

…se é preso por ter cão e por não ter cão.

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O que é chato. Já para não dizer que é bastante ingrato, diga-se de passagem…

Pouca gente me conhece no mundo literário. Não vou a muitos eventos, não tenho participado em concursos, não tenho obras publicadas (a não ser que estejamos a falar da minha página da Smashwords). Tenho mais projectos por finalizar na gaveta (subentenda-se, em pastas no computador), do que resultados finais para mostrar, embora se calhar conte com um maior número de páginas escritas do que colegas com mais exposição pública.

Comecei a escrever desde muito cedo, mas entrei tarde para o mundo literário e nem sempre li Fantasia. Antes de saber um pouco mais sobre o mundo literário português, julgava (numa espécie de utopia) que funcionaria como me parece que funcione lá fora, onde os autores são profissionais remunerados pelo exercício da sua profissão, vêem as suas presenças em eventos serem pagas e vendem milhares de cópias das suas obras, garantindo não só a sua subsistência, como a das suas editoras.

Foi com algum espanto que percebi que por cá as editoras não investem muito em novos talentos (nacionais), que a Ficção Científica e o Fantástico são nichos de mercado demasiado pequenos para terem o merecido destaque e que, inclusivamente, uma boa parte dos novos autores paga a auto-proclamadas editoras para que estas lhes façam o trabalho que um designer e uma  gráfica também fariam (basicamente, o design de uma capa e impressão de livros).

Mais, foi ainda com mais espanto que percebi que é um mundo onde o que quer que se tente fazer, qualquer seja o tipo de iniciativa que se tenha, tudo é levado ao escrutínio público e, muitas vezes, criticado até a exaustão. É só posso calcular que isto não facilite de todo a tarefa a quem é pro activo e tenta fazer algo pelo débil panorama literário nacional.

Ainda assim, dou comigo a não desistir desta actividade que faço por pura carolice, porque me dá prazer, ao invés de me retrair em continuar. E porquê? A explicação é simples e resume-se ao facto de gostar daquilo que faço, de gostar de partilhar os mundos e os personagens que a minha mente insiste em criar, porque acho que, apesar dos riscos que se correm em ter um trabalho publicado, ainda não desisti do sonho de tentar vingar neste mundo. Acho que prefiro ser presa por ter tentado (por ter cão) do que por ter baixado os braços (por não ter cão, portanto…).

Como já mencionei um pouco mais atrás neste artigo, entrei no mundo literário talvez mais tarde do que muitos dos que dele fazem parte, dentro do pequeno nicho em que me insiro. Leitora desde que me conheço por gente (mesmo ainda antes de conseguir juntar as letras), ainda assim não sou aquilo que chamariam exactamente uma geek. Nunca me interessei suficientemente por ficção científica para além de uma linha puramente comercial e generalista. Não, provavelmente não terei lido nenhuma das grandes obras emblemáticas do género. A minha tendência sempre foi para a Fantasia e o Paranormal, e, mesmo aí, seguramente também não terei lido boa parte dos autores consagrados.

É agora que eu faço a seguinte pergunta: E DEPOIS?

Até que ponto tem os supostos “entendidos na matéria” o direito de me chacinar em praça pública por isso? De me desconsiderar porque simplesmente não faço parte do seu mundo? Até que ponto isso faz de mim uma leitora ignorante ou uma escritora menos capaz?

Reparem que não só considero que todos temos direito a ter uma opinião,  como devemos ter a liberdade de poder dizer o que pensamos em “voz alta”. Mas a forma como o fazemos é importante.

Do meu ponto de vista, a única diferença é entre aquilo que eu gosto de ler ou de escrever e aquilo que outras pessoas gostam, sendo que a qualidade será seguramente discutível de acordo com a perspectiva de quem a vê.

Então  será que, mesmo num pequeno país com o nosso não poderá existir espaço para a diversidade? Para respeitar o trabalho dos outros? As preferências de consumo dos outros?

Não será este um ponto de vista demasiado fechado, que tende a limitar o leitor, a confiná-lo a meia dúzia de vozes monocórdicas, não o deixando expandir os seus horizontes?

Enquanto escritora, tenho definitivamente um género favorito onde me insiro e só nele encontro a minha voz. Mas enquanto leitora tenho mais do que uma preferência e vou diversificando o que leio ao sabor do momento.

E, quantas vezes dou por mim a ler obras de qualidade mais duvidosa apenas para lhes espremer a fórmula, o “sumo”, tentando perceber o que faz com vendam milhões de exemplares?

Mais, se desatar a dizer mal daquilo que todos escrevem (portanto, do trabalho dos “colegas”) ou das obras menos felizes que os outros lêem (portanto dos meus possíveis leitores), o que diz isso de mim? E (agora numa visão puramente comercial) de que forma isso influenciará as minhas potenciais vendas?

Em Portugal é-se preso por ter cão e por não ter cão, mas como eu sou daquelas que acredita que mais vale ir presa por ser culpada do crime, do que por nada ter feito, então prefiro mostrar obra feita e não ligar a vozes discordantes.

Sim, quero escrever um best seller de Fantasia, se um dia me apetecer escrevo um romance de fazer corar as pedras da calçada ou mais um livro de auto-ajuda, se achar que tenho algo importante a dizer. E depois se o fizer? Serei menos digna de ter o meu nome impresso numa capa por isso?

E hoje é apenas sobre isto que vos quero deixar a pensar.

Elsa Leal

 

2 thoughts on “Pensa o Bófia de que em Portugal… (Elsa Leal)

  1. Cara Elsa,
    Aquilo que descreve na sua crónica, o tal escrutínio e crítica (pela negativa) até à exaustão foi exactamente o que me aconteceu quando me atrevi a escrever um pequeno texto de ficção científica, que foi publicado por cá numa revista. Doeu tanto (a tareia que me deram por causa do texto) , que deixei de olhar para o nicho português e voltei-me para a participação em antologias brasileiras. E, aí, o panorama mudou: as críticas daquele lado do Atlântico são mais suaves, e sempre pela positiva (e não pela negativa como por cá). Como resultado dessas resenhas positivas, obtive mais reconhecimento aqui em Portugal e os meus contos já são aceites de forma mais amigável pelo fandom. Mas, nada de ilusões: as críticas continuam a ser acutilantemente negativas, mas agora resvalam na couraça da minha indiferença (por vezes ainda magoam).
    Mas, atenção: no fandom existem pessoas verticais, 5 estrelas, que apoiam os iniciados e estão nos lançamentos de antologias, que criticam sempre pela positiva, e que sempre me trataram bem e aos meus contos, e a todos os que se aventuram pelo género. Refiro-me ao Luis Filipe Silva, ao Rogério Ribeiro, e ao Artur Coelho.
    E espeo que a Elsa continue a escrever e a dar a conhecer a sua escrita.
    Abraço,
    João Rogaciano

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    1. Olá João,

      Obrigada pelo seu comentário e pelas suas palavras.
      Por vezes é assim, temos que conquistar um lugar lá fora para que cá dentro o nosso trabalho seja valorizado. Isso acontece em diversas àreas, não só na escrita, portanto, nada de novo 🙂
      De facto o que me limita não são as criticas mas a falta de tempo para terminar alguns projectos em mãos.
      Também já pensei em investir mais na publicação além fronteiras. Talvez esse seja o salto que me falte dar, para ver se encontro ainda mais incentivos e motivação para escrever.

      Espero que continue também a fazer parte do nosso pequeno universo literário, já que por terras lusas somos tão poucos que todas as vozes fazem falta! 🙂

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