Pensa o Bófia de que: as damas… (Elsa Leal)

…já não querem cavaleiros de armadura reluzente que as venham salvar.

Brave2

Com duas crianças de férias, é mais do que normal que o tempo que se passa em casa, implique muitas vezes que acabe a ver filmes infantis. Corrijo, filmes de animação, uma vez que há muitos que são tão deliciosos, que a faixa etária de quem os vê é absolutamente indiferente e catalogá-los seria absurdo.

Assim sendo, este artigo será uma mistura entre a crónica Pensa o Bófia de que… e uma Vistoria Policial, já que vem na sequência de ter assistido ao filme Brave – Indomável.

Se repararmos, os filmes de animação com que éramos bombardeados nas TVs traziam, muitas vezes, o conceito da princesa que precisava de ser salva e se apaixonava à primeira vista pelo príncipe que aparecia montado no cavalo branco. Recordo-me da Cinderela, da Branca de Neve ou da Pequena Sereia terem feito as minhas delícias infantis.

Parecendo que não, cresci com isso. A minha geração cresceu com isso: com esse conceito de amor à primeira vista e de relacionamentos perfeitos, felizes para sempre, o que quer que isso fosse. Com este conceito que haveria sempre um príncipe para nos salvar das bruxas más.

Por isso, a par de uma catrefada de séries de desenhos animados que nos arrancavam gargalhadas pelas trapalhadas e traquinices, este filmes arrancavam-nos suspiros e inspiravam os nossos sonhos.

Porém, numa geração onde, ao longo das duas últimas décadas, a mentalidade se abriu ao mundo e onde os conceitos sociais e a condição feminina mudaram imenso, é interessante notar o reflexo que isso teve também nos filmes de animação.

Aos poucos, apareceram as histórias das princesas corajosas e de espírito livre mas que depois encontravam o amor na forma de outra alma rebelde. Também elas se apaixonavam e vivem felizes para sempre, mas ao menos já não eram indefesas e coitadinhas. Já não eram personagens planas, sem conteúdo ou objectivo, a não ser o de serem salvas. Finalmente começavam a ter alguma personalidade.

Também fomos vendo surgir filmes de outro tipo, que mexiam com o nosso imaginário infantil, diversificando cada vez mais o tipo de histórias e conteúdos. Filmes que nos faziam (e fazem, admito) sonhar, só que já não é com príncipes. Surgiram os brinquedos que falam e vivem aventuras, surgiram monstros que afinal não são assim tão maus, casas que voam com balões, dragões que se domesticam, animais pré-históricos que falam…a escolha é mais que muita!

Nos dias que correm, a animação passou a reflectir uma realidade diferente. Embora os filmes continuem a ter por base conceitos sociais pré-estabelecidos, a lidar com preconceitos e a trazer sempre uma mensagem e uma moral subjacentes, nota-se o cuidado cada vez maior na criação do enredo, nos diálogos e nas histórias que são produzidas.

Mérida, a protagonista de Brave deve ser das únicas que não precisa de um protagonista masculino que a ajude a salvar a mãe e o reino. E é dos únicos filmes de princesas onde me lembro que não aparece uma ponta de romance. Onde acaba por conquistar o direito a ficar sozinha e a decidir mais tarde se quer casar.

Ver isto, encheu-me de esperança pelas gerações futuras. Não por não acreditar no amor e em grandes paixões (caramba, eu sou a leitora/escritora romântica do grupo,que grande contrasenso, hein?), mas porque acredito que não faz sentido continuar a fazer suspirar a criançada com príncipes surgidos do nada e princesas que só nasceram para ser salvas.

Reparem, o mundo da Fantasia já é tão rico em pormenores suculentos, em cenários deliciosos, em personagens caricatos e/ou fascinantes, que reduzir a protagonista a esta condição de mera vítima é matar a história à nascença. As meninas já não sonham em casar e ter filhos e já não se limitam em ser professoras ou cabeleireiras nas suas brincadeiras! O mundo delas está recheado de espadas com que se defendem, de naves espaciais que pilotam, de profissões liberais onde são poderosas. Os meninos já não são os maridos nem os super-heróis que as salvam. Eles combatem lado a lado. Os sonhos das crianças mudaram imenso nestes últimos 20 anos. Portanto, se é para sonhar, que seja em grande. Com direito a borboletas no estômago e a fogo-de-artifício. E, já agora, a uma história memorável.

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