Pensa o Bófia de que… (Júlia Pinheiro)

… os rótulos já não colam por muito que ainda muita gente ache que sim.

Depois de ter escrito por aqui uma crítica ao livro Science Ink fui a um Graffiti Park aqui por terras longínquas (hei-de mostrar coisas). O livro para mim é um marco de amor pelas paixões humanas, uma prova de que as ideias preconcebidas não fazem sentido e que as tatuagens estão longe de ser uma coisa de malucos ou marginais. Curiosamente, e sem qualquer relação, a minha visita a esse Graffiti Park foi uma das melhores experiências que tive nos últimos tempos.

O sítio em questão é aberto, em terra batida, com algumas paredes que dão ideia de ser resto de uma qualquer construção há muito desaparecida. Assim que lá cheguei senti o cheiro a tinta. As primeiras pessoas que vi foram uma pequena família: pai, mãe e duas filhas ainda pequenas. As primeiras palavras que ouvi foi de um homem que dizia que se voltasse lá no dia seguinte já tudo aquilo estava diferente, porque a cada minuto aquele sítio muda. E só depois vi do que é que estávamos a falar.

O sítio transborda cor, está cheio de vida e de alegria. Não é um espaço com um ar super bonitinho e certinho, longe disso, mas é um sítio com uma paz de espírito incrível. Não se ouvem vozes altas, não se ouvem discussões. Havia grupos de amigos, havia famílias, uns estavam a pintar alguma coisa, outros a tirar fotos, outros estavam simplesmente sentados a ver a paisagem do plano alto.

Queiramos ou não a ideia de graffiti tem um estigma negativo associado a ela. Felizmente tem havido várias iniciativas para mudar isso mas ouvindo falar de um sítio específico de graffiti muita gente pensaria que não teria a melhor frequência, que talvez não fosse o melhor sítio para levar as crianças (aliás, ouvi isso quando sugeri o sítio a outras pessoas). Aquele sítio é exactamente o oposto. Um sítio que nos enche completamente, uma paz incrível, uma explosão de luz que nos põe mais bem dispostos assim que olhamos para aquilo. A mutação constante também nos dá mais uma noção de vida, de movimento.

Voltei lá uns dias depois – porque precisava mesmo de lá voltar – e não havia nada daquilo que tinha visto. Novos desenhos, novas mensagens, novas cores. Independentemente disso: exactamente o mesmo espírito.

Eu adorei aquele sítio, assim como adorei o Science Ink. E curiosamente isto nem é para falar de uma coisa nem de outra de forma específica.

O mundo como o conhecemos é muito dado a rótulos. Tudo tem de ter nome e estar inserido na categoria certa. Neste momento as coisas começam a ficar um pouco mais tolerantes. Não precisa de ser bom para tudo, mas há muita coisa que começa a mudar e a integrar de forma mais indiscriminada e por essa perspectiva acho que o mundo fica um sítio um bocadinho melhor.

Na literatura as coisas não são bem assim. Houve muitos rótulos a cair mas a meu ver por motivos diferentes. Eu ainda sou do tempo em que quando dizia que gostava de ler histórias com vampiros e lobisomens as pessoas olhavam para mim de lado, pensavam que era mórbida e que os meus pais não deviam deixar uma rapariga tão jovem ler coisas dessas. Hoje em dia se disser exactamente o mesmo aquilo em que as pessoas pensam já não são bestas assassinas sedentas de sangue. Aliás: já nem pensam na parte literária da coisa.

Fantasia e ficção científica, que são muito dadas a rótulos fortes que as “caracterizam”, por um lado levam a discórdias gigantes de que rótulo por onde e porquê e como e de que forma e em que tamanho e cor; por outro lado, já começa a haver misturas tão grandes e com influências de tantos lados que já não dá para assumir de forma completa num só rótulo. Mas aí usamos vários, ou criamos um novo?

Claro que isto acontece em vários campos mas neste caso em específico que me é mais querido e próximo gosto de observar as várias perspectivas e as várias argumentações que se podem criar de coisas tão simples. Eu confesso que não gosto de rótulos, muito menos de os discutir e de fincar pé numa nuance qualquer de um estilo da moda do rótulo X. Prefiro agarrar num livro, lê-lo e pensar nele por si mesmo, com forma e conteúdo e edição se preciso for, do que ficar a recolher detalhes para depois poder construir um argumento sobre se é A ou B.

Mas até gosto de ver quando outros o fazem – desde que com argumentações interessantes e bem construídas, vá. Agora: será que os rótulos que até há uns tempos funcionavam ainda funcionam? E será que faz sentido ditar de forma tão incisiva qual a “classe” a que pertence uma obra?

Eu acho que às vezes sim, mas nem sempre. Há coisas que não precisam de grandes rótulos. Até porque alguns dependem de tanta coisa que são colados, descolados, recolados e a cola começa a fraquejar. Ou se calhar isso sou só eu. Mas para mim os rótulos cada vez têm menos força.

Insultos, elogios ou sugestões, clique aqui.

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s