Pensa o Bófia de que… (Rui Bastos)

 

…há quem escreva para contar histórias e há quem escreva para contar a sua história. Há quem escreva para manter a memória de alguns acontecimentos e há quem escreva para a apagar. Há quem escreva por escrever e há quem escreva das 9h às 17h, de forma fria e profissional. Mas arrisco-me a dizer que para todos esses casos, e muitos outros, escrever é sempre uma coisa muito íntima, muito pessoal.

O que é, afinal, um texto que eu escreva, para além de um diálogo que tenho a sós, com ninguém em particular e hipotéticos leitores? Estas palavras aqui expostas de forma tão simples vieram da minha cabeça, são as traduções ordenadas do caos que são os meus pensamentos, o último verdadeiro bastião inexpugnável da privacidade que é cada vez mais uma espećie em vias de extensão.

Só eu sei o que me passa pela mente. O mais próximo que outra pessoa pode chegar é ao ler o que eu escrevo, algo muito mais fidedigno do que aquilo que eu digo. Não só pela facilidade em nunca dizer a mesma coisa duas vezes (e qual é a fiabilidade de uma tradução que nunca concorda em pleno consigo própria?) mas também pelo ponto de vista que eu programo nas minhas palavras, através de pausas estratégicas e entoações cuidadosas.

Já ao escrever não há esse problema. As palavras concretizadas em aglomerados de letras são coisas imutáveis e constantes. O que varia é o significado que as várias leituras permitem, mas já não sou eu, pessoa que escreve, a dizer ao leitor como deve entender as minhas palavras. Não pisco o olho no final de uma frase nem suspiro a meio de um parágrafo. Uso vírgulas, pontos finais, exclamações e interrogações à minha vontade, mas toda a gente vê os mesmos sinais, as mesmas letras e o mesmo encadeamento. A interpretação não é problema meu.

A conversa que estou a ter comigo próprio é, assim como os meus pensamentos em estado puro, completamente incompreensível para qualquer pessoa. E quando digo “eu”, digo “nós todos”. O melhor que se pode fazer é deixar cada um ler as coisas à sua maneira e reconstruir pensamentos e sensações a partir daí, por acção própria.

Eu posso contar a história, mas cada um é que sabe que história é que vai ler nas minhas palavras.

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